Entrevista – Egan aos pais: educar é conversar

Eduardo Graça

25.09.2004 | Um dos mais importantes educadores contemporâneos, o professor canadense Kieran Egan gosta de ir direto ao ponto. Mais do que apenas identificar a ineficiência de nossas escolas, Egan forjou uma nova proposta de ensino, fundada na exploração da imaginação das crianças através dos mais diversos meios de compreensão (somático, mítico, romântico, filosófico, irônico). Professor da Universidade Simon Fraser, com doutorado em Educação pelas Universidades de Stanford e Cornell, Egan considera o trabalho em casa, com os pais conversando com os filhos de maneira freqüente, uma das chaves para o desenvolvimento educacional das crianças. Ele apresenta uma série de novos postulados para o ensino de crianças e adolescentes em seu “A Mente Educada”, lançado em 1997 nos Estados Unidos, e já considerado um clássico dos estudos pedagógicos. No livro, lançado no Brasil pela Editora Betrand, Egan reinventa o professor como o contador de histórias da imensa tribo humana e apresenta razões claras para a insatisfação geral com os sistemas educacionais em voga.

Para Egan, toda compreensão é derivada de nossa rápida capacidade de mudança cultural. Inspirado pelas idéias do psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), Egan acredita que é impossível a escola simultaneamente desenvolver o potencial individual de cada aluno, moldá-lo às normas e convenções atuais da sociedade e ainda oferecer um programa acadêmico em perfeita conformidade com o mundo real. O diretor do progressista Imaginative Research Group convida os professores brasileiros a entrar em contato com sua obra. Uma das principais estrelas do congresso Saber 2004, que se encerra hoje no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, com reunião de mais de 25 mil educadores de todo o país. Kieran Egan conversou com NoMínimo pouco antes de embarcar para o Brasil.

Como vai ser o encontro do senhor com os professores brasileiros?

Eu espero que seja fantástico. Em minha palestra, vou tentar explicar por que falar sobre Educação é quase sempre complicado e gera muita polêmica. Eu vou sugerir que boa parte de nossos problemas vem do fato de que esperamos dos educadores três funções básicas, realizadas ao mesmo tempo, mas que são totalmente contraditórias. Nós esperamos que eles cuidem da socialização das crianças e dos adolescentes, que eles elaborem um programa acadêmico de excelência e que ainda se dediquem a desenvolver as capacidades individuais de cada um de seus pupilos. Toda a primeira parte de “A Mente Educada” tenta justamente mostrar como nós podemos repensar a Educação ao centrar nossos esforços na descoberta das muitas maneiras pelas quais os estudantes podem entender o mundo, desenvolvendo diferentes tipos de entendimento – somáticos, míticos, românticos, filosóficos ou irônicos.

Em seu livro, o senhor denuncia a falência do sistema educacional ocidental. Mas qual é o lugar e o significado da Educação no mundo contemporâneo?

Educação nada mais é do que a acumulação das principais ferramentas cognitivas inventadas pelo homem, em nossa história cultural, para auxiliar nossa habilidade de entender o mundo. Entre estas ferramentas, podemos destacar a fala, a escrita e o pensamento teórico.

O que o senhor diria aos pais brasileiros que estão pensando em que tipo de escola devem matricular seus filhos?

Posso dizer que as ferramentas de que falei acima tendem a ser mais exploradas hoje em dia em escolas com um programa acadêmico forte e que, ao mesmo tempo, oferecem aos estudantes liberdade para desenvolver sua imaginação. Esta é a chave de um bom processo educacional.

E o que o senhor diria aos governantes que precisam decidir como investir em sistemas de ensino público?

Esta é uma pergunta muito difícil. O que posso dizer é que estou justamente escrevendo uma espécie de continuação de “A Mente Educada”, que se deve chamar “Como educar pessoas”. Este livro vai ser publicado pela editora da Universidade de Yale e lá eu relaciono as diversas maneiras como podemos desenvolver, de maneira gradual, nossos diversos sistemas educacionais, em diversas realidades, na direção que aponto em livros como “A Mente Educada”. Mas ainda estou trabalhando nisso.

Desculpe a insistência, mas o senhor vê algum conflito entre sua nova proposta educacional e o baixo investimento no treinamento dos professores? O senhor vai dar uma palestra em São Paulo, onde boa parte do professorado ganha menos do que 250 dólares por mês. Certamente não é a mesma realidade do Canadá ou dos Estados Unidos…

É importante frisar que, em Educação, como em muitas outras coisas na vida, você recebe de acordo com o preço que se está pagando pelo serviço. A diferença é que geralmente os professores são muito mais dedicados e compromissados com o trabalho do que você esperaria ao olhar, no fim do mês, os seus contra-cheques. Mas aqui não precisamos de teorias. Se o salário dos professores é baixo, acontece algo perverso: a maioria das pessoas altamente capacitadas para educar a população não vai se interessar pelo trabalho. E aí, meu caro, não há outro jeito: eu acredito piamente que os pais podem driblar o baixo investimento em Educação conversando com os seus filhos. Conversando muito com seus filhos. Conversando sem parar. E conversar, aqui, significa discutir com eles o mundo – e as idéias mais diversas que nos cercam – da maneira mais agradável e instigante possível. Cá entre nós, este é o cerne, o coração de todo processo educacional. A escola pode fazer o seu máximo, e deve, mas em casa nós sempre podemos duplicar este serviço.

O senhor acredita que, além da revolução educacional que podemos realizar em casa, veremos em pouco tempo reformas drásticas no sistema público de educação?

Eu vejo uma frustração generalizada com os grandes sistemas de educação pública. Para os administradores, eles parecem pouco eficientes em comparação com o montante dos investimentos feitos na área. Acredito que a escola pública, de um modo geral, consegue oferecer ao estudante um pouco mais do que o óbvio, mas é claro que poderíamos ter muito mais. Eu acho que as necessárias reformas radicais não são postas em prática porque o ensino público é dominado pelo conjunto de idéias que eu descrevo no começo de “A Mente Educada”. Quase todos os envolvidos com a educação pública ainda acreditam no velho conflito de idéias. Enquanto não ficar claro que este modelo está falido e não vai proporcionar uma boa educação à maioria das crianças nas escolas públicas, nós não veremos reformas de fato no ensino público.

Em seu livro, o senhor fala bastante de ferramentas cognitivas pata tornar mais eficiente o aprendizado. O senhor pode dar algum exemplo da utilizacão destas ferramentas no dia-a-dia de uma escola?

Minha idéia é oferecer aos professores técnicas de ensino que desenvolvam a imaginação e, ao mesmo tempo, aumentem significativamente a capacidade de compreensão do aluno. Por exemplo, para crianças de até dois anos e meio, em que a compreensão somática é abundantemente desenvolvida, uma tática é a de unir o ensino da linguagem ao do ritmo. E em atos simples, como o de contar os degraus enquanto se estiver subindo uma escada ou guardando brinquedos em uma caixa. Ao seguir os sons rítmicos relacionados a certas ações, as crianças se preparam para uma posterior consciência das abstrações. Para quem quiser – especialmente os professores – entrar em contato mais profundo com minhas idéias, é só ir direto ao capítulo oito de “A Mente Educada”, em que relaciono alguns exemplos. Ou, ainda, pode buscar exemplos no site do Imaginative Research Group (IERG). Mais do que isso: eu convido os professores brasileiros a baixar, de graça, no site, várias técnicas de ensino relacionadas com “A Mente Educada”. Ou, se eles preferirem, entrem em contato conosco e mandaremos cópias do “Guia da Educação Imaginativa” sem maiores custos.

O senhor é um dos diretores do Imaginative Research Group (IERG) e há uma defesa por parte da instituição de que as artes e a linguagem oral ajudam muito a educação das crianças…

De fato, estas são duas ferramentas importantes, que podem ajudar a flexibilizar o ato de pensar. Mas elas ocupam, em nosso pensamento, um lugar semelhante ao do ensino das Ciências ou da Matemática. Nem mais nem menos.

Mas há uma clara preocupação do senhor de expandir os limites da educação convencional. E isso nos mínimos detalhes: por exemplo, em “A Mente Educada”, o senhor oferece a possibilidade de os leitores entrarem em contato via email para discutir as idéias apresentadas no livro. O senhor mantém a conversa viva, o livro é quase que uma “obra em construção permanente”. As opiniões de pais e educadores modificaram seu modo de pensar a Educação?

Eu acho que o resultado deste experimento é que pais e professores me fizeram pensar em Educação de uma maneira muito mais coletiva. A participação foi enorme, milhares de pessoas, sem exagero, entraram em contato e expuseram sua forma de pensar a Educação e trataram de algumas das questões expostas no livro. Alguns comentários eu destaquei e respondi, foram criados verdadeiros fóruns, mas era humanamente impossível destacar todos. Este diálogo pode ser acompanhado no site do livro e eu tive um grande prazer com esta experiência.

Entre os exemplos que o senhor oferece de aproveitamento de diversas técnicas de compreensão pelas escolas estão o fascínio de crianças de 10 anos pelo “Livro Guinness de Recordes” e das crianças de 12 pelos ídolos pop e pelos grandes nomes do esporte. Como estas conexões poderiam ser efetivamente usadas em sala de aula pelos professores brasileiros, por exemplo?

Qualquer professor de qualquer disciplina em qualquer país pode colocar uma folha de papel na parede da sala de aula, por exemplo, e convidar os estudantes a descobrir e escrever “recordes” relacionados aos tópicos que eles estão estudando. Vamos imaginar que estamos numa aula de Ciências e a turma está falando sobre minhocas. Ora, os estudantes podem descobrir a mais comprida de todas, a menor de todas, a mais colorida, onde fica a maior concentração de minhocas do planeta, onde fica o deserto de minhocas. Enfim, as crianças vão passar por estas páginas rapidamente e vão entender com profundidade este tópico. Mas este é apenas um exemplo entre os muitos possíveis.

Uma das maneiras de absorver conhecimento que, de acordo com o senhor, vem sendo deixada em segundo plano pelas instituições de ensino, é a compreensão irônica. O senhor acredita que a ironia deva ser uma força decisiva no processo de aprendizado?

Eu acho que o pensamento irônico é fundamental para a formação de um cidadão e de um eleitor mais consciente. Desenvolver a capacidade de pensar de modo irônico é crucial na vida do ser humano, especialmente porque relativiza as certezas que pessoas inseguras formam durante os anos de aprendizado.

Uma pesquisa recente mostrou que apenas 25% dos brasileiros, entre 15 e 64 anos, são capazes de ler, entender o real significado do que leram e escrever sobre o que acabaram de ler. Estes números – referentes a um estudo sobre analfabetismo cultural realizado no ano passado em todo o país – são chocantes, não?

São sim. Vai ser lançado agora mesmo nos Estados Unidos um outro livro, com o selo do IERG, chamado “Uma abordagem imaginativa da Educação”, que será seguido por “Uma abordagem imaginativa para o ensino da leitura”, em que tratamos justamente do analfabetismo funcional, entre muitos outros tópicos. Eu acredito que, para a maioria das pessoas, o problema é que o ato de aprender a ler é completamente dissociado do que realmente importa para elas e do que tem algum significado real para a vida delas. O segredo é reunir o processo de alfabetização com o enorme potencial de imaginação dos estudantes, para que eles possam então ter um acréscimo de entendimento da vida contemporânea. Esta é, para mim, a solução para este enorme problema.